terça-feira, 29 de setembro de 2009

Tome um gole!

Já faz tempo que eu vinha discutido sobre a vida com parentes e amigos. Desde que meu pai foi internado na UTI novamente, o assunto voltou com força total. Eu não sei o que eu faria se alguém, do nada, viesse a falecer do meu lado. Sabe, coisa inesperada, tipo um infarto. "A gente foi programado para tentar socorrer. As únicas formas de morte que o ser humano entende na hora, a chamada morte evidente, é carbonização, decapitação e esmagamento craniano", anuncia minha irmã, que tava doida para me deixar louca. Eu sei, a gente não entende a morte, mas a idéia de um indivíduo sadio cair morto do seu lado... Eu não sei o que eu faria, acho que entraria em pânico.

Daí que essa discussão toda tinha por base uma das regras de toda UTI humanizada: o boletim médico é dado após a visita, do lado de fora do corredor. Ninguém que está internado em uma UTI está a passeio. E muitos parentes entravam em desespero após os boletins. O porquê da regra se explica rapidamente. Imagina um paciente moribundo, desenganado. "Olha, ele não tem mais que 24 horas de vida", revela o médico e daí o visitante entra pra ver o paciente. É lógico que a pessoa vai chorar, não vai se sentir bem... Gente, foi esquecido que o paciente está ali e vivo. Pelo amor de Deus, se é que você acredita em algo, pensa no coitado! Toma um folego, um copo de água... mas lá dentro tem que ser um ambiente um pouco mais feliz.

Tanta discussão me levou a pensar sobre qual seria a ala mais triste do hospital. Eu digo que, para mim, ganha disparado a Oncologia. Mas sobre isso eu falo outra hora... Voltemos à UTI.

Eu fiquei pensando no sofrimento, na quantidade de gente que acha que seus entes sairão dali ainda doentes. Não foram poucas as vezes que me disseram que meu pai poderia ter morrido. Eu sei que uma hora ele vai... e depois de tanto sofrimento, meu desejo é que Deus ou seja lá quem decida o momento em que cada um irá morrer não o deixe sofrer. E assim, lentamente, a gente aceita a morte como uma possibilidade boa. Toda morte repentina, assim como as ditas evidentes, deixam para trás uma situação complicada, de recusa. Afinal, "como assim, ele simplesmente caiu morto? O que foi que aconteceu?" Aconteceu. Morreu. Para morrer, basta estar vivo. Toma um gole e segue a vida. É assim com todo mudo e certamente será assim comigo e com você também.

Engraçado como tem gente que acha a morte poética. Morrer é igual a comer. Agora eu explico porque eu disse que entraria em pânico se alguém morresse do meu lado... Assim como você aprende a comer, você aprende a conviver com a morte, com a idéia de fim para as coisas (por isso que eu concordo com a idéia de que se morre todos os dias). O medo é gerado pela certeza de enfrentar o desconhecido... Daí, depois da primeira vez você já sabe que sofre, mas dá para seguir em frente. Certamente, o meu maior pesar será quando meu pai falecer. Somos intimamente conectados, pelas idéias e pelas emoções; somos muito parecidos. Pela importância que ele tem na minha vida, eu vou sofrer... mas sei que tudo que aconteceu nada nem ninguém vai destruir. Mas depois que a morte passar, eu vou tomar um gole de vida e seguir em frente. E é assim que se vive...

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On the other side

I'll see you again
On the other side
We'll walk hand in hand
Silke Bischoff - On the other side

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