Enquanto conversava sobre ser feminista em um grupo de discussão sobre o amor, uma mulher vira e me diz que está cansada de papos sobre o feminismo. Acontece que há uma deturpação dos ideais feministas. Como se feminista odiasse homens, fossem todas lésbicas e repugnassem o amor...
Irrita-me profundamente essa necessidade de se atrelar a causa do gênero a um separatismo dos mesmos. É preciso sim desconstruir a visão masculina sobre o feminino - inclusive entre as mulheres. Mas não precisamos de sociedade segregada!
Há grupos de feministas onde ser cisgênero é ser errado. Não, amices, não é. [nota: cisgênero é a pessoa que nasceu biologicamente em um gênero, se expressa socialmente nesse gênero, é decodificado socialmente no gênero por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define, e reconhece-se assim (identidade de gênero)]. A grande maioria é assim, e não é errado. Aliás, não tem errado nessa história!
Ser heterossexual também não é errado! Ser bi, ser pan, homo... Nada é errado! Homem se dizer feminista também não, mas daí é um episódio a parte [nota: ver no fim do texto, sobre apropriações].
Feminismo prega igualdade dos gêneros, para que mulher possa ter acesso aos patamares onde só os homens estiveram. Mas quem mais ganha com isso são os próprios homens. Há algo de libertador em se mostrar integrado racional e emocionalmente.
O feminismo prega que não sejamos julgadas inferior porque menstruamos, ou porque podemos engravidar sejamos preteridas em cargos de trabalho. Ou até julgadas como intelectualmente incapazes. O desenvolvimento intelectual está muito mais ligado ao estímulo dado desde criança do que a capacidade do gênero. Se nossas meninas puderem sonhar em ser o que quiserem, teremos engenheiras sim, teremos mulheres em todas as áreas. Mas não, ainda há quem destine a elas apenas a ideia de brincar de casinha, ser a mamãe e fazer comidinha. E negam isso aos meninos, como se eles estivessem destinados a só trabalharem. E para onde vão as opções? Homens não podem cozinhar e mulher não pode trabalhar, é isso que dizem nossos brinquedos!
Vou dar um relato: como minha vó fiscalizava minha lição de casa (que tinha que ser feita antes de brincar), minha brincadeira era achar que eu estava num escritório (obrigada mãe, pelas vezes que me levou no seu escritório), e que minha lição de casa eram os relatórios intermináveis. Pronto, adivinha como eu me divirto hoje? Com minhas planilhas de excel. Adoro o desafio de uma tarefa nova!
"Mas e o feminismo e o amor, Vivian, como é?", vocês devem estar se perguntando. Amor é a transcendência de gênero, de corpo, de mente. É claro que eu, como mulher cisgênero e heterossexual, me relaciono com homens que tenham ideias compatíveis com as minhas (pulo a parte política, as sociais são prioritárias). E sim, é possível isso...
Homem-feminista? [sobre apropriações]
É polêmico isso, homem se dizer feminista. Não é errado, mas não é certo. Assim como caucasiano de alma negra, hetero defensor dos gays, católico se meter entre judeu e palestino. Por mais que tente, você está do lado oposto. A faca nas costas não tá te ferindo. Mas é errado também essa atitude de rejeição. A intensão é boa, mas muita calma nessa necessidade de identificação.
Apropriações de gênero e cultura acontecem o tempo inteiro, e particularmente eu admiro. Um caucasiano usando dreadlock não é desrespeito à cultura negra. Há que ver que virou uma forma de protesto pacífico sobre a liberdade, e um manifesto contra a ditadura estética dos cabelos lisos. "Ah, é moda" também acontece, mas essencialmente as pessoas acabam tendo informação antes de tal decisão.
Sejamos mais figurativos: a moda popularizou a calça para mulheres, coisa que foi o feminismo que se apropriou do mundo masculino. Assim como hoje você vê homens usando longline, saia, opção não falta! A apropriação é a queda da barreira, é a mistura. Ser contra é segregar de por símbolos visíveis, é um muro de Berlim cultural.
Quem demoniza que a moda faz apropriações indevidas, não entende que o principal papel da moda é transformar o contexto, levantar o debate. [nota: não entraremos na discussão do consumismo, ok?] É a moda que tem o poder único de popularizar as ações de transformação, e nem digo sobre moda de roupa, mas imaginem se houvesse mais brinquedos unissex? Vou deixar uma divagação: imagina se amanhã não houvesse mais as princesas da disney, nem os esteriótipos ben10... a sexualidade do brinquedo tá na mente do adulto! Minha sorte foi ter brincado de pega-pega, de amarelinha, de roda... E tudo misturado. Minha sorte são minhas cicatrizes, minhas experiências, minhas histórias. E se alguém se apropriar delas, no fundo eu espero que consiga fazer o que eu não consegui ainda.