domingo, 11 de outubro de 2020

Minha fiel companhia

 Passei dias a fio tentando pensar no que escrever, como voltar a criar. A Tristeza tomou conta de mim. Ela me é uma irmã: mora comigo, almoça e janta comigo. Compartilhamos a solidão e os momentos felizes. Embora ela tenha desembarcado em mim durante um período razoavelmente fértil, de brigas e discussões, ela encontrou uma raiz mais profunda, dos abandonos.

Como falar de algo que dói, e que você sequer sabe o que aconteceu? Quem abandona raramente dá motivos compreensíveis para quem foi abandonado. Sinto no peito e traduzo em palavras a dor de um animal deixado à própria sorte na beira da estrada. Compartilho com ele a sina de não saber que caminho seguir, se tento me virar, a ilusão de que voltarão por mim, que me procuram, ou se simplesmente espero a morte chegar.

Alternado com momentos de "lucidez", quando finjo que nada disso é importante e que tudo que acontece no outro momento é minha cabeça em devaneios destrutivos. Comecei a entender a bipolaridade que me diagnosticaram: essa montanha-russa, de altos e baixos e poucas calmarias. Ninguém quer ficar perto, dá para tentar entender. 

Disseram-me que eu era indigesta. E talvez essa tenha sido a definição mais autoexplicativa até agora. E a única que me deram em toda a minha vida. Senti-me como um daqueles pratos soberbos que além de caro são extremamente doces ou de gosto raro. Azedo? Amargo? Ácido? Indefinível.

Numa tentativa de salvar minha autoestima, uma amiga vida e fala que sou para poucos. É, talvez sim. Tão poucos que não consigo ter quase ninguém à volta. E os poucos que vem, logo se vão. 

A única que nunca parte é a Tristeza. Quando ela sai, vai no máximo dar uma volta, arejar, e logo já retorna.

sem título

Quis que o tempo apagasse

as memórias não vividas

desse amor negado,

após o beijo roubado.

Quis que a vida levasse

Por caminhos divididos

esses olhos fechados,

depois do luar mirado.

Porém o tempo e a vida

me encheram de sonhos lúcidos,

com tua presença sentida,

depois de tanto tempo passado.

Pedi então que a lua, 

essa dos amantes

que lamentam distantes,

que te trouxesse de volta.

Ainda que não estais aqui,

te tenho em meu peito,

pela razão que espero,

és a certeza de que me queres também.

E se pela luz do luar não voltar,

que a vida me coloque em teu caminho,

pelo menos por um minutinho,

para que se eternize em meu olhar. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

pensamentos de outubro (1) + Poema de desesperança

 Poesia é como uma vontade de gritar ao mundo. Expulsar os demônios, seus e dos outros. 


Poema de desesperança

Soltei frases ao vento,
esperando que me respondesse
Olhando o céu ao relento
até que escurecesse.
Já não havia mais sol
tampouco um luar
procurava somente o farol:
a luz do teu olhar.
Pobre marinheiro,
que navega sem porto,
mais parece bandoleiro,
a se fingir de morto.
Eis que chegamos ao fim
não retornaremos ao lar.
Não haverá lápides de marfim
Estamos juntos no fundo do mar...


Estou vendo fotos antigas, de um mundo em que eu não tinha tido tantas decepções, para encontrar a inspiração. Se nada é motivo, se não há acalanto que acalme o coração, pelo menos que o saudosismo de boas histórias vividas sejam algo a cantar.



domingo, 4 de outubro de 2020

Esperando

Perguntaram-me se era difícil
Ficar apaixonada por alguém como você
Estar apaixonada não, 
Permanecer já o é.
É um eterno esperar,
Não que eu não queira,
Já te esperei por toda a minha vida,
Mas é inclusive esperar se vai voltar.
A cada dia que passa
Não sei mais se te espero
Porque nessa espera
Estamos vivendo
E também morrendo.
Hoje já não sei mais o que esperar
Se o teu regresso,
Ou o meu findar.

Espera que me desespera.
Esperança é também esperar.
Se não tiver esperança,
Nada tenho que esperar.
Nessa temperança 
Aprendi a controlar
Ciúmes, desejo,
Angústia e luxúria.
Menos a saudade,
Essa louca insana
Que me faz pirar!

Ainda te espero,
Não mais no Porto de San Blas,
Mas em cada esquina,
Praia ou monte,
Tu me irás encontrar!

sábado, 26 de setembro de 2020

Medo

 Estou com medo
Desses que paralisam a gente
Desses que impedem de andar
Medos que não me deixam voar.
Estou com muito medo
De conhecer gente nova
De voltar a me machucar
De voltar a me apaixonar.
Medo mesmo
De sofrer e fazer sofrer
De cair e de amar
Principalmente de amar
Medo de verdade
De não cumprir a promessa
De avançar, ter pressa
E não conseguir refrear
Medo dos medos
Queria eu não ter
Assim como não deveria te querer
Mas morro de medo de me arrepender

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Falta...

 Ainda há uma falta de vontade de escrever. Uma falta de poesia e de romance. Tenho dores de cabeça que parecem arrancar-me os miolos. Tenho cansaço e a apatia em diagnóstico.

Falta-me a vontade de viver, de lutar. Mas também falta-me a coragem de saltar. Na dúvida, mantenho minhas ansiedades e expectativas como quem cria peixes. Alimento-as com minhas inseguranças e meus medos. 

...

Falta é algo que cativa.
Prisioneiro, me submeto
A falta que a falta faz.

Se lhe falta algo,
É vontade.
Se alguém lhe falta,
É saudade...

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Momentum

 Eu não tinha pressa. Não tinha motivo para chegar logo. Peguei o que precisava, o suficiente. Fechei a porta e saí. No caminho pensava sobre todas as coisas que me amarravam às escolhas feitas. Trabalhar para pagar o boleto do consórcio do carro que eu iria comprar para trabalhar. Por um momento, pensei “que contrassenso, trabalhar para comprar para trabalhar?”. Mas não fiz essa escolha, havia inclusive vendido esse carro que eu pagava? Não me recordava.

Do que eu estava atrás mesmo? Não fazia sentido, tentei lembrar o que eu havia comido pela manhã e não tinha lembrança do que era. A memória me pregava uma peça: o que era?

Esforçava-me para lembrar os tons das cores das roupas do meu guarda-roupas. Corria a mão na textura do casaco, como chamava? Os sabores, os cheiros, como era?

Tentei lembrar do dia que me apresentara a tua família, o clima, era manhã? Não, era noite? Faz tempo, não faz? Não tenho certeza, quando era?

Foi um lugar especial, me recordo. Como me recordo do dia em que nos conhecemos. Mais ainda de nosso último encontro. Talvez. Corrija-me se estiver enganada. Mas não recordo do primeiro beijo, onde era?

As lembranças esvaneceram. Apagadas por ansiedades demasiadas que você achou sufocante. Você mentia em coisas que me desagradavam apenas para vermos o tempo passar... por que era?

A vida batia mais forte em mim a cada mentira. Eu sofria, eu chorava. Mas eu era a pessoa que não sabia, que pagava para não saber. Não tinha feito essas escolhas. Afinal de contas, quem eu era?

Corri os olhos na paisagem. A natureza nunca teve pressa, nem precisou dar nomes. Parei e contemplei: com pressa, eu me perdi. O tempo não irá parar, disse o poeta, e eu aprendi a mentir, dizendo passar o tempo enquanto queria te ver passar.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Sobre Evoé

 5 dias sem publicar, porque não conseguia escrever. Inúmeros textos não terminados. Hoje, escrevi Evoé cantando. Uma vontade de liberdade. A necessidade de gritar é forte, mas me pedem o silêncio. Não dá para engolir todos os sapos e achar que is coaxos vão acabar. 

Há um grito que é silencioso, mas que incomoda mais que o estridente agudo. A não-resposta vem com uma sutileza mas arremessa mais longe que bola de canhão. O que há de incomodar é a incerteza que mora dentro da mente dos que se acham demais.

Evoé é verbo, porque é uma atitude, é movimento. É cortar com o silêncio, mas não é responder. É grito de guerra, é a chamada pra ação, é o último e derradeiro levante. Balada do louco pois não há regra ou estratégia, é entrar em campo atirando.

Vejo como uma canção e não somente como poema, vejo como uma última taça de vinho ao deuses antes da partida.

Espero ter inspiração para escrever (foram alguns dias ouvindo grunge na intenção de retomar o fôlego) amanhã...

Evoé (balada do louco)

Livre-me,
Da utopia dos sonhos,
Impossíveis,
Do desejo proibido.
Repleta de ansiedade,
De um futuro
Desconhecido
O que há de acontecer?
Perto, os amigos
Ainda mais perto,
Inimigos,
Todos iremos perecer.
Na balada do louco
Há um carro desgovernado
E um império a desvanecer.

Deixe-me,
Na imensidão dos vazios,
Incontáveis,
No deserto temido.
Repleta de saudade,
De um passado
Vivido
O que mais há para ver?
Perto, os antigos,
Ainda mais perto,
Os perigos,
Não dá pra escolher.
Na balada do louco
Há um carro desgovernado
E um império a desvanecer...
Evoé!

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Da peleja

Trago minh’alma ferida de morte
De um corte profundo que atravessa o corpo
Sangra a alma, escorrem os sentimentos
Se esvai a vida e todo o desejo
O corpo não luta,
Movimentos aumentam o sofrer
A morte é certa,
Para esse amor que tanto faz doer

Tu me apunhalaste com adaga,
Quando te trouxe perto do coração,
Cortando a carne e a alma.
E como se não bastasse eu te valorava,
Fiz alguns poemas, prosas e canções,
Falando desse amor, dessa paixão.
Não que me arrependa, não!
Mas ai que tristeza não poder
Falar ao vento teu nome,
Não poder recitar meus versos
Pois falarão de algo que já se foi,
Decrépito, arruinado e decadente.

Enterro com eles minha rima,
Meus sonetos e minhas canções.
Tinha dado vida à revelia,
Por ti instigada, motivada.
Agora nada há de fazer sentido
Para continuar a falar de algo
Que já se acabou. 

Não é desprezo ou falta de esmero,
Mas não tenho força para inventar
Algo que tanto imaginei
E que tanto quis cantar.





quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Desabafo de setembro amarelo (por que não viver?)

 Aconteceram tantas coisas em minha vida recente, que me sumiram as palavras. Muito sério isso. A vida fica cinza. A vontade não existe. Estou em um processo de um coração partido - remendado - estilhaçado.

 E todo o resto da minha existência tem um quê de malabarismo dentre todos os problemas dos outros que eu acabo por ter de resolver. Venho me desligando disso e percebo que nada me sobrou nesse buraco existencial chamado vida.

Hoje (Dia 15) me lembraram que era setembro amarelo, sobre prevenção ao suicídio. Eu retomei o tratamento psiquiátrico quando me peguei em uma crise de desespero, chamada tecnicamente de “sensação de morte iminente”, e só retomei a consciência em cima do viaduto. Sim, se eu não recobrasse a consciência, talvez não houvessem textos hoje.

Depois disso, graças a um precioso amigo, desafiei o viaduto. Descer pela corda de rapel. 

Então posso dizer como alguém que esteve na borda do viaduto, por duas ocasiões distintas, uma com desespero de viver e outra com o desespero de morrer. 

Quem abre mão da vida vê a vida cinza, exatamente como eu a vejo hoje, sem perspectiva, sem motivação, sem expectativas. O desejo se foi. O valor já era, ou nada vale ou tudo está fora de alcance.

Quem luta pela vida vê que não viu todas as cores, cheios de sonhos, desejos, ambições, expectativas e motivações. Tudo é um passo para o sucesso.

Digo isso como quem empurra a vida com a barriga procurando um sonho alheio pra chamar de meu. O viaduto me ensinou a ser covarde e a não ser inconsequente. Covarde porque agora eu só me arrisco naquilo que foi checado e testado por alguém que me prove que é seguro. Por pensar nas consequências: quantos pularam? Quantos encerraram a vida ali? Quantos não poderiam, com um minuto a mais de vida, ter seus destinos mudados? Em quase 5 anos na vizinhança do viaduto, eu mesma vi tantos episódios de mortes. 

O que me salva todos os dias é uma pergunta simples: por que sim e por que não? Por que viver e por que morrer? Hoje não tenho palavras como não tenho motivos. É um vazio imenso. Mas igualmente válido para a vida e para a morte? Não há nada que valha a pena a minha morte, assim como há poucas coisas que me amenizam a pena de viver. Eu sigo buscando o sonho alheio em que eu me encaixe. Simplesmente por não ter sonho algum.

O coração agora estilhaçado revela a triste realidade de que o sonho alheio não tem espaço pra mim. Nunca terá. E minha vida se baseia em pagar contas e empurrar as coisas fúteis para um dia quiçá ter, ver, comer e/ou viajar. 

O pouco de desejo nativo que me sobra é arrumar uma companhia. Ter alguém com quem conversar, chamar para jantar, passear à noite pela cidade. É o que me faz levantar e seguir. À espera dessa pessoa, vou vivendo. Passando o tempo, colando os caquinhos desse coração que está em migalhas...

terça-feira, 15 de setembro de 2020

De um vício

Escrever quando se está apaixonada é mais fácil. Sejam palavras de amor ou não, em tudo se vê poesia. Quando não queria, me apaixonei. Sem nem o conhecer direito. A paixão é física, mas não precisa do presencial. Amor platônico, que chamam, não era o caso. Conversávamos sempre e isso alimentava meu vício. Era a minha cocaína, minha cola, tirava a necessidade de todo o resto, me inebriava e anestesiava ao mundo. Não cegava, sabia onde eu me metera.

Era um don Juan, um amante, que a mim não desejava. Falava-me como colegas distantes, que desabafam sobre a vida. E falando-me sobre suas desaventuras, deixava claro meu espaço em sua vida: não há, nem haverá, provavelmente nunca.

Isso machuca. Mas um coração apaixonado só ouve o que lhe interessa. E o meu continuava a pedir por uma dose diária de atenção. Mais um bom dia, por favor? Tirava-me a calma. Qualquer toque do telefone pode ser o tão desejado bom dia...

Que não veio. Em sua última mensagem, dizia para não criar expectativas. Eu bem queria. Queria criar flores, ovelhas ou 40 gatos, mas não cabem em meu apartamento. Porém crio expectativas, que só precisam caber no meu coração.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Amanheci

Amanheci só, de uma solidão amarga que me amarra a boca como um Cabernet Sauvignon. Solidão essa que não foi buscada, mas alcançada com anos de dedicação aos estudos e trabalhos, ao sucesso e dinheiro que nunca chegaram.

Amanheci só, porque em algum canto da casa há memórias tristes de um passado que não convém lembrar. De traições e mentiras, ditas por quem dizia me amar e que por fim me faz desconfiar que não sou digna de amor.

Amanheci só, mais um dia que amanhece no meu quarto escuro de onde não quero levantar. Mas o Tempo bate à porta e alguém tem que abrir. Convido-o, senhor Tempo, a ficar. Dessa forma, amanhã não estarei só.

Mas o senhor Tempo é furtivo, ligeiro e muito passageiro. Mal abro a porta e ele já se vai. Há muitos a quem visitar, diz. E eu, amanheço só porque só amanheci.

domingo, 13 de setembro de 2020

Minha espera

 Te quero
Não te necessito
Como o ar que respiro
És um dia de sol que espero

Te desejo
Não te preciso
Como incauto de um aviso
Mas como enamorados,
    buscam um beijo

Te bendigo
Como um bom amigo
És um valioso abrigo
Quando sinto perigo

E repito: te quero,
Te desejo e te bendigo
Ainda que não esteja comigo
Você é tudo que espero

sábado, 12 de setembro de 2020

Versos de desamor

 Trazia o coração forte e a alma protegida. Resolveu viver seus versos e poemas mais doídos e as tramas mais sincréticas. Havia em seu olhar a frieza de quem sobrevivera ao inverno vendo outros caírem ao seu lado. Mas acreditava no amor, na paixão e nos dias quentes de verão. “Mais um desamor para rimar com a dor que fortalece o andor! Não me importa que não me ames, estou procurando este que há de me amar e não vou parar até encontrar!” E seguiu seu caminho... quis seguir mas pensei: que nobre! Tal caminho meu também vou encontrar? E me perdi no mapa do teu olhar...

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

De ti (Soneto Torto de amor)

 Se em meus devaneios te espero,

É porque em ti encontro abrigo,

Daqueles que um bom amigo

Oferece num passo de bolero


Te tenho sempre em boa conta

Porque contigo tenho uma vida

Desejada e muito querida

Que em nada me amedronta


Ainda que só eu me lembre

Cantando com bom humor

Que te quero pra sempre


É nesse soneto de amor

Que regras não cumpre

Que te canto com louvor

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Saudades

Saudade é um troço complicado. Do que eu sinto saudade? A pergunta soa cruel. É muito difícil dizer. Nomear. Sinto saudade do que vivi e do que não vivi, de quem conheci e de quem sequer se deu conta de minha existência, de lugares por onde passei e de onde sonhei. Nomear é difícil e cruel.


Mas saudade tem som, gosto, cheiro, formato. E isso não posso negar.


Saudade tem a voz de Toquinho ao violão. Ou o dedilhar de Jobim ao piano.

Saudade tem sabor de bolinho de chuva, ou de pão quentinho.

Saudade tem cheiro de cafezinho, e de lavanda na roupa macia.

Saudade tem formato quadrado, do porta retrato. Ou redondo, da tigela de barro.

Saudade tem textura, dos cabelos e da pele arrepiada.


Ai que a Saudade cresce no peito e recorro a tudo que ela mais gosta. De Toquinho, com café e pão quentinho. Se a pergunta já era cruel, a Saudade é masoquista. Ela tortura com músicas que, desafinadas, entorpecem a cabeça. O bolinho de chuva queima, o pão endurece, o café está aguado, e a roupa já fede.

Saudade ainda não rasgou o teu retrato, mas já se desfez da quebrada tigela de barro. 

Não me sobra lembrança. Porque não toquei teus cabelos ou tua pele arrepiada. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Tua Arte

Trago-te flores,

Para alegrar-te

Pois sei que tua arte

É falar de desamores


Trago-te maçãs

Não te esqueça de alimentar-te

Pois sei que tua arte

Te consome pelas manhãs


Trago-te minha vida

Pois com tua arte

Falará de minha partida


Trago-te minha dor

Pois nessa tua arte

Vás a falar de amor

terça-feira, 8 de setembro de 2020

De uma porta fechada

Hoje me peguei pensando sobre todas as vezes que perdi. Uma briga, uma despedida, uma demissão, um pedido de demissão, um término de namoro, um roubo. Quantas vezes conseguimos dizer adeus para situações que estamos acostumados e que sem saber nunca mais iremos repetir? 


Fechei os olhos e reabri. E repeti. Apenas para ter certeza que poderia fechar e reabrir várias vezes meus olhos. Olhei minha mesa. Será que tenho certeza mesmo que estarei aqui amanhã? Não, não consigo dizer adeus. Nem para uma mesa, que sequer me pertence.


Por alguns instantes, hesitei. Hora de ir embora. Já vai tarde a hora. Caminhei para longe da mesa, com o peso do dia nas costas. Apaguei a luz.


“O último a sair fecha a porta!”, lembrei. Não, hoje não vou fechar não! 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Vermes

 Sujo, podre, errado, os vermes infectaram. Antes fossem fungos e leveduras, mas são vermes da pior espécie. Tudo putrefato, corrompido, inválido...


O cheiro invade o espaço. Enoja quem tenta permanecer mais que segundos no mesmo ambiente. O azedume é insuportável. Nauseante, de modo escatológico. 


“Fujam, fujam! Volta que deu errado!”, gritam aqueles que estão no caminho contrário. Nada que façam arrumará o estrago. A humanidade causou esse colapso...

domingo, 6 de setembro de 2020

Comigo, contigo

Pudor não combina contigo, seu corpo toca o meu e sinto nossos corações acelerarem. Teus braços me envolvem, me desfaço em sensações: trago meu corpo trêmulo para junto do seu. Tudo tem gosto de primeira vez. Primeiro abraço, primeira toque das mãos, primeiro beijo, primeira carícia nos cabelos.


Timidez não combina comigo, me entrego à tua mão, submissa aos teus comandos. Dançamos nossos passos mais íntimos, você me conduz nessa estrada: você domina meu corpo com o seu. Tudo tem ritmos, odores, cores e sabores. Cadência, vinho, negro e doce.


Estamos entregues, você comigo e eu contigo. Enlaçados, cheios de desejos e de torpores. Matamos nossa sede de vida e prazer.


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6-9-2020. 6-9 é dia do sexo. Disfrutem, se cuidem!

sábado, 5 de setembro de 2020

O Quadro

 Não consegui pensar nas horas, meu relógio as tomava de mim sem que eu me desse conta. Contei nos dedos de uma mão o tempo que consegui não pensar, em minutos. Fiz esforço para lembrar como era a vida antes de tudo, mas não me vinha nada à mente. Passeei a mão nos cabelos, como quem busca um caminho entre o emaranhado de fios até o neurônio quebrado que não dava sentido às ideias.

- Que anda fazendo? Catando piolho? - perguntava o amigo ao meu lado.

- Não... Talvez matando o último resquício de autoestima.

- Que isso! Pode parar já, aí! tá matando é eu, de vergonha com esse cabelo bagunçado! - bate na minha mão, e ajeitando-me o cabelo. - Você tem que parar! Bonita desse jeito e se deixando feia, parece que quer fazer propaganda enganosa!

- Tenho meus motivos. Não consigo para de pen...

- Shiu! - disse, interrompendo-me. - Que merda vai dizer? Que não consegue esquecer, seguir em frente? Você pode, por você! Diria mais: você deve! Cadê o brio, o orgulho? A menina altiva que conheci não diria isso.

Silenciei-me. Naquele silêncio poderiam ter passado horas ou talvez alguns minutos. Não importava, minha cabeça não silenciava. Olhava a parede. Por não conseguir enfrentar a face cruel do tempo, esquivava o olhar para uma pintura pendurada, que traziam arcos dourados pintados em um fundo rubro negro escuro, que me lembrava sangue. Dividia-se em duas telas e um arco cobre, ou marrom com um quê de dourado, as conectava, compondo o círculo.

- Não é linda essa pintura? - indaga uma velha senhora ao meu lado.

- Não sei, ela me aflige.

- Ouroboros, minha filha. Não há medo! A cobra que engole a si mesma, provando de seu veneno. Mas sendo seu, dele não morre. Não há fim. Por isso não tem medo, desconhece o limite. Se te aflige, é porque você tem medo de você mesma.

- Eu mesma? Como assim? - a velha conseguira captar minha atenção.

- Se te contam que é errado e perigoso, você nunca vai, não é? Contaram à cobra que seu veneno estava na outra ponta de seu corpo, o outro lado dela mesma. Curiosa e disposta a dar fim aos mal que habita nela, foi lá e comeu. Não morreu, e tão logo viu que o mal ainda existia, perto de onde se havia mordido. E se mordeu novamente. E tão logo mordia, o veneno reaparecia bem ali, além da mordida. Determinada, sem medo, perseguiu a si mesma, arrancando com suas presas o veneno de seu corpo, sem entender que era parte dela. Como dele se alimentava, e ele representa a morte, não há fim. Ele sempre ressurge, não há limite. E seu formato é um círculo, para lembrar o todo e o eterno. - disse a velha. - O que te aflige é o medo do teu veneno, mas esse já habita em você! Ninguém tem medo de desconhecido, só de repetir algo que já viveu, ainda que em sonho. Encarar aquilo que te dá medo, entendendo que te fortalece, irá desfazer todos os seus medos.

Quando a velha acabou de dizer, me peguei em silêncio refletindo sobre o que ela dizia. A imagem já não me causava mais tanta aflição: tinha uma imagem bonita, forte e calorosa. Os aspectos deixavam claro sua intenção, a batalha íntima. Eu mesmo me debatia ainda a pouco com um medo. Algo que não queria pensar. O que era mesmo?

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Um dos vários inícios de historietas inacabadas. Repaginada. Revisitada. 

De um bom dia

Tendo os dias, não para pensar, talvez para fazer,

os passo por deixar, quiçá por te querer.


Talvez tenha os dias mais alegres,

talvez os tenha mais sensíveis,

os tenho mais eruditos

e, certamente, mais evasivos.


Ainda que faça o necessário,

não deixo de fazer o contrario,

faço tudo com esmero,

porque... Aí, só faço o que quero.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Pobre rima

Pensava em escrever.

O que te escrever?

Como descrever?

Por que deixar de te ver?


Olhos no papel,

Tinta no pincel

Da pintura em óleo sobre tela,

À vida vista da janela.


Minha rima tão pobre,

Mas de sentimento nobre.

Não quer falar de dor,

E sim somente de amor. 


quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Finais

Escrito em algum momento de 2020

Tudo que eu imaginava ver, tocar, sentir. Tudo que eu precisava ouvir. A oposição de desejos, o choque. A distância de um centímetro da sua mão transformada em polos opostos do globo. Abismo, ainda que lado a lado, separando. O calor que eu buscava, agora me traz frio. O rasgo na alma, mais uma cicatriz em cima de outra cicatriz. A dor de sentimentos destruídos causa anestesia. Belisco-me, não funciona. Um tapa na cara? Não, um golpe na cabeça. Nada dói. Raiva, de mim e de tudo.

A certeza do arrependimento.
Não vou querer lembrar desse momento.
Quando eu sair, não tem volta.
Quando você sair, feche a porta.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Não monogamia masculina

Texto original de 2016


Homem é não-monogâmico na cama, mas na cabeça é de uma pessoa só. Demorei muito tempo e muitos relacionamentos para poder afirmar isso. Talvez você diga isso é óbvio ou discorde. A verdade dos relacionamentos não-monogâmicos, ou poliamorosos, é sempre em torno de um casal principal. Das duas, uma: ou é brinquedo sexual ou é assistência técnica. Nos trisais, de hierarquia declarada, o fetiche criado em cima do terceiro parceiro, namorado da entidade casal. Quando banca o desconstruído, não-hierárquico, pode crer que a coisa esfriou, e a não-monogamia virou tentativa de salvar o relacionamento.


Não falo de nenhum relacionamento meu, mas de todos ao mesmo tempo. Porque na tentativa de fugir do complexo de amante, do "só sexo", eu vi diversas fórmulas, todas com o mesmo dilema, a centralização da expectativa afetiva do parceiro masculino. De longe, o mais sincero foi um relacionamento atual meu que disse "não consigo", quando perguntado sobre sua capacidade de amar simultaneamente duas pessoas. "Sexo sim, afetivamente não".


Depois desse momento, rompi ou diminuí todas as minhas relações. Não consigo lidar com a ideia de me relacionar sexualmente com alguém que não sinta nada por mim e nem eu sinta algo pela pessoa. É um coisa minha, parte da minha demissexualidade. Eu perco a vontade. E quando me toquei que eu estava com os restos sentimentais, eu brochei.


O pior de tudo é que eu me toquei do que acontecia dando um toque em outra pessoa. "Cuidado com quem centraliza as expectativas, viram chantagistas emocionais da pior espécie". Sem perceber, eu, que monogamicamente já tinha passado por essa experiência, estava me envolvendo com pessoas assim. O maior problema é que isso é o modus operandi padrão masculino. Na prática, ele vai centrar os problemas do cotidiano em um(a) parceir(o/a). Se ela for você, já sabe: abre o olho que vem chantagem. Se for na outra pessoa, seja bem vinda ao complexo da amante. Sim, complexo da Concubina, secundária, reconfigurado para os tempos atuais. 


E não se trata de ciúmes, do velho ciúmes heterossexual. Aliás, por mais que se debata o ciúme feminino, ele encontra alimento e terreno fértil no comportamento masculino. Estou apontando um comportamento egóico masculino, machista, escondido no engodo da não-monogamia. Alimentar o sentimento alheio e depois dizer que não consegue dar conta. A falta de responsabilidade afetiva é frustrante! 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Passado a limpo (+Carpe Diem)

Não farei retrospectiva do hiato em que não postei meus textos, muita coisa passou. Somente é importante a observação de que a vida mudou, e muito, de 2016 até hoje. Quatro anos não são quatro dias, 4 horas ou 4 meses - a fração de tempo de vida é maior do que me caberia contar.


Revisitar o passado serve apenas para incomodar o presente. Passado deve assim permanecer onde é seu lugar, no passado. Dizer isso - logo eu que faria qualquer coisa para estar com meu pai, que já pertence ao passado - é uma prova de quão diferente estou: sou grata ao passado, apegada a ele, mas que ele já não me serve, é real. Não posso e não irei esquecer, mas não posso me atar ao passado com o peso de grilhões, esperando que um dia se torne mais leve para que eu possa acompanhar o presente.


E oportuno é o momento para me desapegar: já não há mais tantas memórias físicas ou associações construídas em cima desse passado. Já não moro no mesmo lugar, não falo com as mesmas pessoas e nem faço as coisas que antes faria. Eis o tamanho da mudança.


De importante, a compra da minha caixinha de fósforos, em 2017. Ou meu apartamento, como preferir. Pequeno, porém meu: ter algo para chamar de seu, algo grandioso como uma moradia, traz mudanças absurdas na vida.


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Aproveitando que hoje é aniversário de um grande amigo, que me ensinou muito sobre o que é de fato ser Carpe Diem, faço uma observação: aproveitar ao máximo não é guardar para mais tarde, é consumir o que necessita naquela hora. Do pão quente, do café recém tirado, do espumante que eleva suas bolhinhas. Amanhã, o pão estará duro, o café frio e o espumante sem bolhas. Aproveite. Carpe Diem!

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Em companhia

Enquanto a lua crescia no céu, cresceu em meu peito uma admiração. Não conseguia olhar seus olhos diretamente, eram penetrantes demais. Senti-me árvore jovem perto daquele jacarandá robusto em forma de gente. Menininha demais, cheia de frivolidades.


Elogiou meus frutos, minhas frases soltas. E eu, ainda com palavras escassas pela seca que me afligira, tentei criar frutos doces e suculentos. 


Coma, prove de minha essência. É pouco, mas é o que tenho. Minhas raízes em minhas entranhas procuram um caminho novo, novos verbetes para traduzir novas sensações. Quero compartilhar o bem que tua sombra me traz. E sim, só de estar ao lado já resgato em mim algo que não pensava conseguir mais: paciência, devaneios livres de julgamentos, minha essência em prosa e poesia. 

domingo, 30 de agosto de 2020

De um oceano

Busco em mim um nexo, um sentido. Perdi tempos atrás minhas referências, meu significado. Fui atrás de algo ou alguém que pudesse me lembrar o que isso queria dizer, e me tiraram as palavras. Um longo inverno de sem fim, repleto de prosas inacabadas, de diálogos que viraram monólogos.


O espelho não refletia, a fotografia não revelava. Você levou contigo o mundo que eu queria conhecer, enquanto meu mundo ruía sem eu perceber.


Triste é a sina daqueles que sem conhecer o oceano das palavras, ficam restritos a descrever o que sentem com um pouco mais que um lago de frases prontas. Tiraste de mim a tristeza, mas levou também a poesia.


Agora tua suave lembrança é o engano que conto para todos, do mundo que construí com sonhos para nós. E nem nesse sonho você tomou seu lugar. Eis que a prosa retorna, como um sopro nos cabelos trazidos por um alguém diferente.


O ar canta novos verbetes, a lua traz novos motivos, viver nunca fez sentido, mas pelo menos a poesia tem o mesmo aroma de maresia do meu antigo lar.

Alicerce

Se me perguntarem hoje o que me move, responderei a falta de movimento alheio. Quais meus alicerces? Direi que estou recostada sobre um bambu, que se dobra e desdobra, porém teima em não quebrar. Persistência, resiliência, dizem. Teimosia, digo. Alongada, atinjo outros lugares sem sair da minha posição inicial. Não é inércia, é ponto de vista. Parada, já fiz mais que muitos daqueles que caminham.


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Voltando a postar! Muita coisa que passou, talvez poste o que tenho em rascunho, talvez não... Servirá como forma de desapegar, talvez? ou morrerá no limbo dos textos inacabados...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A feminista e o amor

Enquanto conversava sobre ser feminista em um grupo de discussão sobre o amor, uma mulher vira e me diz que está cansada de papos sobre o feminismo. Acontece que há uma deturpação dos ideais feministas. Como se feminista odiasse homens, fossem todas lésbicas e repugnassem o amor...

Irrita-me profundamente essa necessidade de se atrelar a causa do gênero a um separatismo dos mesmos. É preciso sim desconstruir a visão masculina sobre o feminino - inclusive entre as mulheres. Mas não precisamos de sociedade segregada!

Há grupos de feministas onde ser cisgênero é ser errado. Não, amices, não é. [nota: cisgênero é a pessoa que nasceu biologicamente em um gênero, se expressa socialmente nesse gênero, é decodificado socialmente no gênero por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define, e reconhece-se assim (identidade de gênero)]. A grande maioria é assim, e não é errado. Aliás, não tem errado nessa história!

Ser heterossexual também não é errado! Ser bi, ser pan, homo... Nada é errado! Homem se dizer feminista também não, mas daí é um episódio a parte [nota: ver no fim do texto, sobre apropriações].

Feminismo prega igualdade dos gêneros, para que mulher possa ter acesso aos patamares onde só os homens estiveram. Mas quem mais ganha com isso são os próprios homens. Há algo de libertador em se mostrar integrado racional e emocionalmente.

O feminismo prega que não sejamos julgadas inferior porque menstruamos, ou porque podemos engravidar sejamos preteridas em cargos de trabalho. Ou até julgadas como intelectualmente incapazes. O desenvolvimento intelectual está muito mais ligado ao estímulo dado desde criança do que a capacidade do gênero. Se nossas meninas puderem sonhar em ser o que quiserem, teremos engenheiras sim, teremos mulheres em todas as áreas. Mas não, ainda há quem destine a elas apenas a ideia de brincar de casinha, ser a mamãe e fazer comidinha. E negam isso aos meninos, como se eles estivessem destinados a só trabalharem. E para onde vão as opções? Homens não podem cozinhar e mulher não pode trabalhar, é isso que dizem nossos brinquedos!

Vou dar um relato: como minha vó fiscalizava minha lição de casa (que tinha que ser feita antes de brincar), minha brincadeira era achar que eu estava num escritório (obrigada mãe, pelas vezes que me levou no seu escritório), e que minha lição de casa eram os relatórios intermináveis. Pronto, adivinha como eu me divirto hoje? Com minhas planilhas de excel. Adoro o desafio de uma tarefa nova! 

"Mas e o feminismo e o amor, Vivian, como é?", vocês devem estar se perguntando. Amor é a transcendência de gênero, de corpo, de mente. É claro que eu, como mulher cisgênero e heterossexual, me relaciono com homens que tenham ideias compatíveis com as minhas (pulo a parte política, as sociais são prioritárias). E sim, é possível isso...


Homem-feminista? [sobre apropriações]



É polêmico isso, homem se dizer feminista. Não é errado, mas não é certo. Assim como caucasiano de alma negra, hetero defensor dos gays, católico se meter entre judeu e palestino. Por mais que tente, você está do lado oposto. A faca nas costas não tá te ferindo. Mas é errado também essa atitude de rejeição. A intensão é boa, mas muita calma nessa necessidade de identificação.

Apropriações de gênero e cultura acontecem o tempo inteiro, e particularmente eu admiro. Um caucasiano usando dreadlock não é desrespeito à cultura negra. Há que ver que virou uma forma de protesto pacífico sobre a liberdade, e um manifesto contra a ditadura estética dos cabelos lisos. "Ah, é moda" também acontece, mas essencialmente as pessoas acabam tendo informação antes de tal decisão.

Sejamos mais figurativos: a moda popularizou a calça para mulheres, coisa que foi o feminismo que se apropriou do mundo masculino. Assim como hoje você vê homens usando longline, saia, opção não falta! A apropriação é a queda da barreira, é a mistura. Ser contra é segregar de por símbolos visíveis, é um muro de Berlim cultural.

Quem demoniza que a moda faz apropriações indevidas, não entende que o principal papel da moda é transformar o contexto, levantar o debate. [nota: não entraremos na discussão do consumismo, ok?] É a moda que tem o poder único de popularizar as ações de transformação, e nem digo sobre moda de roupa, mas imaginem se houvesse mais brinquedos unissex? Vou deixar uma divagação: imagina se amanhã não houvesse mais as princesas da disney, nem os esteriótipos ben10... a sexualidade do brinquedo tá na mente do adulto! Minha sorte foi ter brincado de pega-pega, de amarelinha, de roda... E tudo misturado. Minha sorte são minhas cicatrizes, minhas experiências, minhas histórias. E se alguém se apropriar delas, no fundo eu espero que consiga fazer o que eu não consegui ainda.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Olha!

O olhar vale mais que mil palavras. Mas você me olha e todas elas fogem. Eu que sempre as tive na ponta da língua não as acho em nenhum lugar.

Seus olhos me hipnotizam. Eu não sou mais eu sob teu olhar. Sou flor desabrochada, sou janela aberta, sou um convite para a festa. Logo eu, que sou porta entreaberta, e não mais que um botão de flor repleto de espinhos! Seu mar me leva e, quando dou por mim, minha alma vaga longe.

Sei do teu desejo como sei! Teus olhos me disseram. Mas olha, se em meus olhos achar o que anseia, eu te dou sem dor. Senão só me olha, porque no teu olhar eu consigo contemplar o meu.

E se a gente se olha, olha bem de perto, que talvez meus olhos te mostrem o teu olhar...

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Eu e minha paixão por olhares sinceros, sorrisos castos e verdadeiros...

domingo, 10 de janeiro de 2016

Desapegando

Se eu desapeguei de coisas que amo, por que não vou conseguir me desapegar de você?

Me devolve o ar, me devolve a vida, me devolve a alma. Me devolve tudo que levou, me devolve a mim.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

De um afogamento

Preciso escrever, preciso me desafogar dessa angústia.

Querer teu cheiro nas minhas entranhas, teu olhar no meu andar, teu sorriso na minha boca, teu abraço no meu peito, teus sonhos no meu travesseiro...

Querer como eu te quero é pecado, dizem. Mas pecado mesmo seria não querer a quem me faz tão bem! Pecado maior é o teu, de fugir do meu desejo quando me deseja também!

Querendo teu sabor, vou por aí experimentando. Nada! Nenhum é tão bom, faz tão bem, tem esse tempero de corpo que tua mãe te deu.

Querendo sigo a tu'alma! Não é desta vida esse desejo, deve ser carma! Talvez darma, se ter tua calma refastelando em minha cama.

Querer-te-ei, desejando estar comigo. Com nossos sonhos cruzados. No que é meu sendo teu.

Querer-te-ei sempre. Rompendo minha carne até a mais profunda camada ser maculada, marcada por sua passagem.

Preciso mesmo me afogar em você, até que eu seja uma parte de você, para nunca mais precisar sair.