sábado, 5 de setembro de 2020

O Quadro

 Não consegui pensar nas horas, meu relógio as tomava de mim sem que eu me desse conta. Contei nos dedos de uma mão o tempo que consegui não pensar, em minutos. Fiz esforço para lembrar como era a vida antes de tudo, mas não me vinha nada à mente. Passeei a mão nos cabelos, como quem busca um caminho entre o emaranhado de fios até o neurônio quebrado que não dava sentido às ideias.

- Que anda fazendo? Catando piolho? - perguntava o amigo ao meu lado.

- Não... Talvez matando o último resquício de autoestima.

- Que isso! Pode parar já, aí! tá matando é eu, de vergonha com esse cabelo bagunçado! - bate na minha mão, e ajeitando-me o cabelo. - Você tem que parar! Bonita desse jeito e se deixando feia, parece que quer fazer propaganda enganosa!

- Tenho meus motivos. Não consigo para de pen...

- Shiu! - disse, interrompendo-me. - Que merda vai dizer? Que não consegue esquecer, seguir em frente? Você pode, por você! Diria mais: você deve! Cadê o brio, o orgulho? A menina altiva que conheci não diria isso.

Silenciei-me. Naquele silêncio poderiam ter passado horas ou talvez alguns minutos. Não importava, minha cabeça não silenciava. Olhava a parede. Por não conseguir enfrentar a face cruel do tempo, esquivava o olhar para uma pintura pendurada, que traziam arcos dourados pintados em um fundo rubro negro escuro, que me lembrava sangue. Dividia-se em duas telas e um arco cobre, ou marrom com um quê de dourado, as conectava, compondo o círculo.

- Não é linda essa pintura? - indaga uma velha senhora ao meu lado.

- Não sei, ela me aflige.

- Ouroboros, minha filha. Não há medo! A cobra que engole a si mesma, provando de seu veneno. Mas sendo seu, dele não morre. Não há fim. Por isso não tem medo, desconhece o limite. Se te aflige, é porque você tem medo de você mesma.

- Eu mesma? Como assim? - a velha conseguira captar minha atenção.

- Se te contam que é errado e perigoso, você nunca vai, não é? Contaram à cobra que seu veneno estava na outra ponta de seu corpo, o outro lado dela mesma. Curiosa e disposta a dar fim aos mal que habita nela, foi lá e comeu. Não morreu, e tão logo viu que o mal ainda existia, perto de onde se havia mordido. E se mordeu novamente. E tão logo mordia, o veneno reaparecia bem ali, além da mordida. Determinada, sem medo, perseguiu a si mesma, arrancando com suas presas o veneno de seu corpo, sem entender que era parte dela. Como dele se alimentava, e ele representa a morte, não há fim. Ele sempre ressurge, não há limite. E seu formato é um círculo, para lembrar o todo e o eterno. - disse a velha. - O que te aflige é o medo do teu veneno, mas esse já habita em você! Ninguém tem medo de desconhecido, só de repetir algo que já viveu, ainda que em sonho. Encarar aquilo que te dá medo, entendendo que te fortalece, irá desfazer todos os seus medos.

Quando a velha acabou de dizer, me peguei em silêncio refletindo sobre o que ela dizia. A imagem já não me causava mais tanta aflição: tinha uma imagem bonita, forte e calorosa. Os aspectos deixavam claro sua intenção, a batalha íntima. Eu mesmo me debatia ainda a pouco com um medo. Algo que não queria pensar. O que era mesmo?

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Um dos vários inícios de historietas inacabadas. Repaginada. Revisitada. 

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