quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Desabafo de setembro amarelo (por que não viver?)

 Aconteceram tantas coisas em minha vida recente, que me sumiram as palavras. Muito sério isso. A vida fica cinza. A vontade não existe. Estou em um processo de um coração partido - remendado - estilhaçado.

 E todo o resto da minha existência tem um quê de malabarismo dentre todos os problemas dos outros que eu acabo por ter de resolver. Venho me desligando disso e percebo que nada me sobrou nesse buraco existencial chamado vida.

Hoje (Dia 15) me lembraram que era setembro amarelo, sobre prevenção ao suicídio. Eu retomei o tratamento psiquiátrico quando me peguei em uma crise de desespero, chamada tecnicamente de “sensação de morte iminente”, e só retomei a consciência em cima do viaduto. Sim, se eu não recobrasse a consciência, talvez não houvessem textos hoje.

Depois disso, graças a um precioso amigo, desafiei o viaduto. Descer pela corda de rapel. 

Então posso dizer como alguém que esteve na borda do viaduto, por duas ocasiões distintas, uma com desespero de viver e outra com o desespero de morrer. 

Quem abre mão da vida vê a vida cinza, exatamente como eu a vejo hoje, sem perspectiva, sem motivação, sem expectativas. O desejo se foi. O valor já era, ou nada vale ou tudo está fora de alcance.

Quem luta pela vida vê que não viu todas as cores, cheios de sonhos, desejos, ambições, expectativas e motivações. Tudo é um passo para o sucesso.

Digo isso como quem empurra a vida com a barriga procurando um sonho alheio pra chamar de meu. O viaduto me ensinou a ser covarde e a não ser inconsequente. Covarde porque agora eu só me arrisco naquilo que foi checado e testado por alguém que me prove que é seguro. Por pensar nas consequências: quantos pularam? Quantos encerraram a vida ali? Quantos não poderiam, com um minuto a mais de vida, ter seus destinos mudados? Em quase 5 anos na vizinhança do viaduto, eu mesma vi tantos episódios de mortes. 

O que me salva todos os dias é uma pergunta simples: por que sim e por que não? Por que viver e por que morrer? Hoje não tenho palavras como não tenho motivos. É um vazio imenso. Mas igualmente válido para a vida e para a morte? Não há nada que valha a pena a minha morte, assim como há poucas coisas que me amenizam a pena de viver. Eu sigo buscando o sonho alheio em que eu me encaixe. Simplesmente por não ter sonho algum.

O coração agora estilhaçado revela a triste realidade de que o sonho alheio não tem espaço pra mim. Nunca terá. E minha vida se baseia em pagar contas e empurrar as coisas fúteis para um dia quiçá ter, ver, comer e/ou viajar. 

O pouco de desejo nativo que me sobra é arrumar uma companhia. Ter alguém com quem conversar, chamar para jantar, passear à noite pela cidade. É o que me faz levantar e seguir. À espera dessa pessoa, vou vivendo. Passando o tempo, colando os caquinhos desse coração que está em migalhas...

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