quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Saudades

Saudade é um troço complicado. Do que eu sinto saudade? A pergunta soa cruel. É muito difícil dizer. Nomear. Sinto saudade do que vivi e do que não vivi, de quem conheci e de quem sequer se deu conta de minha existência, de lugares por onde passei e de onde sonhei. Nomear é difícil e cruel.


Mas saudade tem som, gosto, cheiro, formato. E isso não posso negar.


Saudade tem a voz de Toquinho ao violão. Ou o dedilhar de Jobim ao piano.

Saudade tem sabor de bolinho de chuva, ou de pão quentinho.

Saudade tem cheiro de cafezinho, e de lavanda na roupa macia.

Saudade tem formato quadrado, do porta retrato. Ou redondo, da tigela de barro.

Saudade tem textura, dos cabelos e da pele arrepiada.


Ai que a Saudade cresce no peito e recorro a tudo que ela mais gosta. De Toquinho, com café e pão quentinho. Se a pergunta já era cruel, a Saudade é masoquista. Ela tortura com músicas que, desafinadas, entorpecem a cabeça. O bolinho de chuva queima, o pão endurece, o café está aguado, e a roupa já fede.

Saudade ainda não rasgou o teu retrato, mas já se desfez da quebrada tigela de barro. 

Não me sobra lembrança. Porque não toquei teus cabelos ou tua pele arrepiada. 

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