Saudade é um troço complicado. Do que eu sinto saudade? A pergunta soa cruel. É muito difícil dizer. Nomear. Sinto saudade do que vivi e do que não vivi, de quem conheci e de quem sequer se deu conta de minha existência, de lugares por onde passei e de onde sonhei. Nomear é difícil e cruel.
Mas saudade tem som, gosto, cheiro, formato. E isso não posso negar.
Saudade tem a voz de Toquinho ao violão. Ou o dedilhar de Jobim ao piano.
Saudade tem sabor de bolinho de chuva, ou de pão quentinho.
Saudade tem cheiro de cafezinho, e de lavanda na roupa macia.
Saudade tem formato quadrado, do porta retrato. Ou redondo, da tigela de barro.
Saudade tem textura, dos cabelos e da pele arrepiada.
Ai que a Saudade cresce no peito e recorro a tudo que ela mais gosta. De Toquinho, com café e pão quentinho. Se a pergunta já era cruel, a Saudade é masoquista. Ela tortura com músicas que, desafinadas, entorpecem a cabeça. O bolinho de chuva queima, o pão endurece, o café está aguado, e a roupa já fede.
Saudade ainda não rasgou o teu retrato, mas já se desfez da quebrada tigela de barro.
Não me sobra lembrança. Porque não toquei teus cabelos ou tua pele arrepiada.
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