segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Amanheci

Amanheci só, de uma solidão amarga que me amarra a boca como um Cabernet Sauvignon. Solidão essa que não foi buscada, mas alcançada com anos de dedicação aos estudos e trabalhos, ao sucesso e dinheiro que nunca chegaram.

Amanheci só, porque em algum canto da casa há memórias tristes de um passado que não convém lembrar. De traições e mentiras, ditas por quem dizia me amar e que por fim me faz desconfiar que não sou digna de amor.

Amanheci só, mais um dia que amanhece no meu quarto escuro de onde não quero levantar. Mas o Tempo bate à porta e alguém tem que abrir. Convido-o, senhor Tempo, a ficar. Dessa forma, amanhã não estarei só.

Mas o senhor Tempo é furtivo, ligeiro e muito passageiro. Mal abro a porta e ele já se vai. Há muitos a quem visitar, diz. E eu, amanheço só porque só amanheci.

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