Desde que pedi as contas do último emprego, conheci muita gente. Muitas embalagens sem rótulos definidos, muitos sorrisos de Monalisa em minha direção. Ainda que eu não queira saber o que cada um realmente é, eu sempre acabo por visualizar rótulos.
E o que mais me incomoda é quando esses rótulos vêm escrito "perigo: veneno" ou "cuidado: usar com cautela". Não que eu use pessoas, mas quando você não pode mergulhar de cabeça em uma personalidade, por que então se aventurar em conhecê-las?
Mas em algumas embalagens vêm escrito: "novidade", "aroma intenso", até "rende mais"... e que belo convite, heim?
Sinto-me anestesiada com tanta informação, tanta gente nova, tantos nomes, tantas faces. Muitas embalagens! Já se perguntou como se sente uma criança que ainda não sabe ler, mal entende o que se passa e é levada a um supermercado? Não é a toa que elas abrem o berreiro, é desesperador! Por que esse a gente pode e esse outro a gente não pode beber? Por que esse é importante e esse outro não? Por que tantos "por ques" surgem em nossa mente? Assim...
E quando se é adulto, a resposta é tão automática que não é preciso ler: "Porque não pode!" E pronto. Mas será que o mesmo funciona com as pessoas? Será que não é possível reler os rótulos, sabe quem é ou não nocivo à saúde?
Acho tedioso quando dizem: foi por engano. Não, não foi. É preciso ousar, testar o diferente. Principalmente quando se avaliam pessoas. Reúno-as todas em um balaio, vejo quem vai me administrar a melhor junção para o dia e assim vou. Seria eu louca de beber detergente? "Deter gente" sempre me pareceu um nome de poção... Tipo aquelas que prometem o ser amado em pouco tempo.
Mas eu uso rótulos em forma de roupas, uso aromas em forma de perfume, uso sabor em forma de palavras e gestos. E a essência, ah, o que eu realmente faço... É preciso mergulhar em uma personalidade para conhecê-la...
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